domingo, julho 24, 2011

XOSÉ MARÍA ÁLVAREZ CÁCCAMO

Xosé Cáccamo é uma das grandes vozes galegas contemporâneas.

Nasceu em Vigo, em 1950. É professor de Literatura, poeta e crítico literário. Tem ainda publicado obra narrativa e teatral. É autor de poemas – objecto e visuais. Recebeu o prémio Ésquío (1986), o prémio da Associação de Críticos de Espanha (1987), o prémio da Crítica da Galiza (19888) e o prémio González Garcés (1999). Publicou, no domínio da poesia Praia das furnas (1983), Arquitecturas de cinza (1985), Os documentos da sombra (1986), Luminoso lugar de abatimento (1987), Cimo das idades tristes (1988), Fragmentos de mar (1989), O lume branco (1991), Colecção de espelhos (1994), A escrita das aves de Março (1997), Calendário perpétuo (1997) e Os cadernos da ira (1999). Tem ainda publicados livros de relatos como Microtopofanias e A luz dos desnorteados e como autor teatral Mostro do meu labirinto (1987) e Casa dormida (1988). Publicou edições comentadas dos livros de Celso Emílio Ferreiro Longa noite de pedra (1985) e Onde o mundo se chama Celanova (1991), a edição da Poesia galega Completa (1987) (1987) de José Maria Alvarez Blázquez e Antologia 50 anos de poesia galega. A geração de 36 (1994). As suas colaborações críticas aparecem dedicadas fundamentalmente à poesia galega da segunda metade do século XX.

· O POETA DOS REFLEXOS

No livro Colecção de Espelhos, Cáccamo percorre o universo das memórias intemporais que marcam os lugares e, sobretudo, o próprio sujeito da enunciação, onde a figura paterna se insurge inevitavelmente, quer como prenúncio dramático, quer como veículo de salvação, como podemos depreender da leitura do poema Sempre Agosto: “Mas de noite/ medra uma esfera preta, esse silêncio alto/ o pai fala da lua, canta/ um poema sereno, pede/ que nos sentemos todos/ debaixo de estrelas que chamamos Agosto”; e ainda no poema Papel de Encaixe: “Foi o dia/ em que o pai nos levou por caminhos fechados...”. Podemos também detectar a dimensão e o peso da paternidade na formação de lembranças que marcam o tempo interior, reiterada nos últimos versos do primeiro poema com que o livro inicia: “Naquele recanto abre uma fenda o sul/ face ao lugar por onde chega o pai/ sempre ocupado com labor de pesos/ ao meio-dia. / Era vento que entrou na minha vida e nunca parte.” É constante, nesta Colecção de Espelhos o percurso que, amiúde, se transforma num enigma, já que as repostas do “pai” – que poderá ser Deus ou mesmo uma divindade iluminada na própria figura do pai terreno – são escassas, mas sempre uma espécie de chave que, concomitantemente, abre ou fecha o horizonte. No poema Via Interior do Norte a formulação de questões parece interminável, tal como a sucessão das noites que nos fazem pensar e, consequentemente, questionar: “Pai, / essa rua de mármore é uma nuvem de luz?/ O pai dava em resposta um desenho enigmático/ das origens, da escura direcção do Sentido/ e pronunciava o Norte e um número perfeito,/ a proporção das coisas e o círculo do Tempo.” Alguns dos poemas deste livro parecem atravessados pela dialéctica sentido – interrogação. Ainda no mesmo poema, os primeiros versos a sugerem: “…”Podíamos sonhar/ interrogando aos poços das alturas celestes. / Onde vai essa luz? Quem dita esse rumor/ de libélulas brancas, esse fósforo roto/ a cair sobre nós?”. Também no poema O Animal Sagrado continua premente o questionamento: “Fechadas portas no limiar da praia, / ferros de névoa, lacre e um arcanjo/ enclausuram o jardim do paraíso. / E agora que faremos, desnutridos/ subitamente brancos, frios, ermos, / cobertos de cortiça impermeável?”. Por outro lado, sendo o espelho, segundo Sheler o órgão de autocontemplação e o reflexo do universo, ele poderá constituir na poesia de Cáccamo e, em especial nesta obra, um refúgio memorial. No poema Assim Também o Coração, pode ler-se: “ A memória trabalha/ em colecção de estampas que me fazem vivo namorado nos/ pórticos frutais…”; no poema Pedro Cáccamo, o poeta recorre à novamente à sua “colecção”: “O meu avô morreu lutando com os vultos da memória”. Ainda no poema Passo do Estreito reparamos como o que marca esse espaço de gravação não se extingue ainda que, por vezes, queiramos que algumas recordações se tornem eufémicas: “levamos a tristeza numa caixa de lata / decorada com flores e pássaros azuis / um fio de lembranças a foto da mulher / um idioma que canta e um esquecimento doente / para não regressar porque fugimos mortos / e o mar dentro de nós e a noite pelo mar…”. Em suma, vinte e oito poemas pautados pela viagem ao interior do que sentimos e recordamos e, por outro lado, pela cadência magistral de ritmo que perpassa a poesia caccamoniana.

· O POETA DAS ORIGENS

É com o livro Vocabulário das Origens que Álvarez Cáccamo obtém o prémio de poesia “Miguel González Garcés, em 1999. Os poemas, meticulosamente pontuados, são como esculturas. Mais uma vez a precisão de imagens e a nitidez da mensagem reiteram o ritmo – que parece assertivo para que nos possamos embrenhar no universo dos lugares, das visões, dos sonhos e dos símbolos, não esquecendo o que se memorizou ou, pelo contrário, tentando obliterar tudo ou criar uma espécie de vazio meditativo para que possamos saborear as origens. Sem rima, mas ritmada, a poesia caccamoniana revela a surpreendente força da imagem que se transforma em cadência. O espaço memorial e o conjunto de emoções momentâneas atravessam os versos que compõem cada poema. Nas origens está a essência das palavras, a própria originalidade que o poeta busca incessantemente, ao captar a essência do todo e de si mesmo. O universo abre-se, quando acontece a comunhão entre o ser e as suas raízes. Nessa espécie de revelação transcendental surge a efervescência com que os sentimentos afloram, tal como se depreende do primeiro poema deste livro, intitulado Árvore: “Estou desancorado, altíssimo, em silêncio, / no cimo da vertigem. Tenho medo.”; “ No cimo da magnólia, / onde o vento é vontade de metal / e não há porta aberta nem sombra em redor / ali fiquei agónico / e o abismo na memória permanece / como um poço de luz.”

Os lugares são também motivo e perspectiva do poeta. Ao atravessá-los, experimentando-os, capta-lhes a essência, tal é a carga emotiva que armazenam enquanto espaços habitados. No poema Casa, lemos: “A casa é sempre a mesma. Construída/ com substância de sombras…” e “ A casa regressa sempre em cada casa. / Assim vivem comigo os fundamentos / que são horas primeiras: essas mãos / do pai que aperta as minhas debaixo da água tépida…”. Para além da dimensão dos lugares, os não - lugares – tendo em conta o seu carácter transitório e passageiro, no anonimato – também sugerem uma arquitectura peculiar que se dilui com a esfera da nosso cariz efémero, tal como parecem revelar os versos do poema Elefante: “Provisional prodígio, arquitectura / do equilíbrio mais frágil: / água em lâmina cega…”e “ Frágil / a torre humana, símbolo da tensa / harmonia dos seres na clausura / do tempo que limita com os abismos. / Quebradiça / a geometria aérea / de esferas e cilindros em eléctrico arco…”

O lugar do corpo, espectador da sobremodernidade, tal como apontava Baudelaire, parece insurgir-se na inevitabilidade da dissolução. Assim parecem revelar os primeiros versos do poema Gente: “Espalham-se, desagregam-se, dissolvem-se / como grãos aventados, como pó / e nada são, misturam-se com a terra e colhem cor de terra. Assim regressam.”

Poeta dos reflexos e das origens, poeta dos lugares e não – lugares, Cáccamo revela uma surpreendente harmonia entre forma e conteúdo, transformando as palavras em poesia como poucos, deixando que o destinatário viaje, tal como o próprio poeta, por itinerários de diversa índole, convidando-nos a percorrer corredores de humana e desumana existência, deixando que a poesia convoque, ela mesma, a compreensão ou a incompreensão, o entendimento ou o desentendimento do que acontece ou do que não acontece, do que foi, é e será, do que existe e do que não existe e, sobretudo, do que sentimos e do que não sentimos. Sob a contemplação do indivíduo, enquanto depositário de dilemas, Cáccamo constrói os versos como se fossem “arquitecturas de cinza”. No entanto, é das cinzas que renasce nova essência ou sangue novo ou poesia nova onde tudo se recria. Reiterando a ideia da casa, como espaço memorial e interior, Cáccamo é o poeta arquitecto dos versos que compõem a estrutura firme e frágil do indivíduo, enquanto depositário da sua génese e do binómio perfeição / imperfeição. Podemos viajar através das Arquitecturas de Cinza e sentirmos a casa que cada um possa interpretar como mente, mundo, alma ou planeta, como criação ou talvez como divindade ou como poesia. Cabe a cada um sentir a sua própria casa: “A casa ergue a sua serena arquitectura de símbolos no cume da praia e nunca chega a ela o golpe decisivo…Ela resiste. / Ela acolhe sempre os extraviados.”

A força das imagens que percorrem a poesia cáccamoniana faz com que recordemos cores, objectos ou traços marcantes como se fossem microfilmes. Esta particularidade faz da poesia de Cáccamo uma obra –prima a revelar-se, assim que nos aproximamos da sua essência: “ Começa a chover dentro da casa / e nunca mais no tempo extenso / a chuva dorme. Chega o dia, / vou entrar na gente difusa / entre roupas amarelas de tédio. Quando volto / dentro há só uma cadeira diante da luz e chove, / medram fungos devorando as paredes, / tudo soa à cor da cinza. Diante da tarde aberta além dos vidros / laranja o tempo meu, doente, paira / e um mar ferido morre abaixo.”

terça-feira, junho 21, 2011

Recensões

A Imobilidade Fulminante
António Ramos Rosa
Porto, Campo das Letras
Colecção: Campo da Poesia - 10

A Imobilidade Fulminante
de António Ramos Rosa

Como num filme, as réplicas da realidade sucedem-se no suporte fictício que o poeta abrange. Ao projectá-las no écran do livro, são apenas as mensagens que têm a forma de palavras e o fundo em liberdade porque, em poesia, os horizontes tendem à abertura e não ao fechamento semântico. As palavras", embora possam vir de uma região subterrânea ou da parte mais alta da cabeça como ondas" parecem justificar a "Imobilidade Fulminante" de António Ramos Rosa. Poderão corresponder ao que cada um sumaria enquanto processo e processador de informações e sensações. Ramos Rosa sublinha: "o poeta é, essencialmente um ser com (os outros) e um ser para (os outros). O movimento de dádiva será libertação e o de recusa ostracismo, o primeiro será esvoaçante, o da imobilidade, fulminante. O poeta parece estabelecer correspondências variadas entre a sua percepção, quer do real, quer do irreal, com as de outros. Tal fenómeno manifesta-se no complexo processo criativo onde é possível constatar a intertextualidade da qual muito dificilmente o poeta consegue desprender-se, pela tendência natural de se constituir um poeta com os outros, respeitando, assim, essa sua intrínseca forma de recusar Narciso. Através da mão que se apresenta como testemunha da manifestação de símbolos que encerra (união, fraternidade, força), o criador contacta directamente com as pessoas e com as coisas: conecta-se ao mundo material, com o qual aprende a distinguir o que a própria mão poderá veicular em si, enquanto portadora de mensagens legíveis e enquanto segmento de continuidade do ser. A postura, o gesto, a forma, o estado, a intenção dos movimentos por ela criados são, talvez, a pessoa que o poeta sente e perde nesse leque de linhas e formas de diferentes perspectivas analisáveis. Se o mundo e o cosmos são incompreensíveis, precisamente porque não abarcamos seguramente a sua génese e a sua finalidade, então e pessoa ( máscara e mão simbólica), tende a revelar-se, mimeticamente, um enigma constante em constante revolução, por descender de um outro muito maior. Cumpre-se, desta forma, a eterna procura: "se o corpo é interdito tu procuras ir até onde poderás ir / para seres já o que não és ainda / Nessa ruptura fulminante em que tu és a tua mão / que palpa o imperceptível e se transforma em arco entre dois domínios heterogéneos e contrários". Temos provas de que existimos. A nossa mão revela-se o fio condutor do mundo, réplica da existência e da linguagem universal: "A tua mão flui com um movimento de música e os seus acordes diluem-se na brancura da página". Não é evidente que a imobilidade que fulmina se confina à mobilidade da mão ou à ausência de movimentos da mesma. A diferença irredutível destes signos é a sua vasta possibilidade combinatória, culminando nas palavras, enquanto conceitos inacabados: "Não pode a mão alcançar o que ela ultrapassa"- Serão então as coisas representadas e as ideias materializadas, as cores palpáveis e os sons acorrentados. Estarão imóveis? "Às vezes é demais dizer uma só palavra / mas haveria uma suspensa e como que interdita um pouco sufocante e de impaciência viva e ela poderia ser a palavra do imediato contacto / com o que sendo ausência é sol de uma nebulosa / E é ela talvez a que nós estamos projectando como a mão visível do encontro". Esta hipótese de dizer como dizemos o que dizemos afunda e faz emergir, concomitantemente, o poeta na sua escrita e o poeta realizando-se na procura do outro que desejaria abranger, atitude esta, ausente, portanto, num processo narcísico: "Às vezes no poema há uma voz que se afoga/ e diz Tu és meu é essa a mais preciosa / porque na própria perda o desejo se levanta / e pode levantar o corpo que se afunda".

Entre a interioridade e o exorcisar de uma consciência de limite e de impossibilidade, Ramos Rosa extende-se na leveza das cores, das tonalidades e dos reflexos, na solenidade dos silêncios, na desenvoltura das imagens fortes: "quadris de argila", "ferida generosa", "árvore indizível", "sílabas brancas e vermelhas", "visceral veludo", "simetrias de fogo" (...). O sentido da existência contrapõe-se ao sentido das palavras e completam-se num paralelismo estabelecido pelo poeta que carrega a sua mão, o seu corpo e, talvez, a sua cruz. A palavra revela-se, não sem limites, o último recurso para atingir a plenitude libertadora: "...O teu corpo estremece antes e depois/ porque o inviolável transgride os limites da precária segurança desse frágil suporte que poderia estalar e desagregar-te / Mas perante a palavra que vai à tua frente / tu sentes o glorioso frémito / da queda na brancura ou num deserto fulminante". Terminamos com o deserto? Nesse local de contemplação e meditação o poeta fica só com as palavras. Sem paredes. Talvez deseje para si a ilusão das formas. Se "é na nudez que o corpo respira", a ausência do que se já formou e passou são ainda os últimos espaços de opacidade. Todavia o poeta procura a transparência e a origem de não sentir o peso do corpo, mas o Big Bang de uma força superior, de uma energia que o atormenta e mantém vivo, leva-o numa viagem de descoberta constante. Ao menos a música, essa linguagem universal, poderá oferecer-lhe um aroma de união com o mundo em que vive, ao qual transmite: "Não tenho mais do que palavras/ Mas as palavras são mais do que palavras / Elas podem ter a força de um vento verde e empinam-se para se arredondarem em transparente melodia". Vale a pena ler este livro de poemas. Vale sobretudo a energia criadora de António Ramos Rosa, alma grande.

Marília Miranda Lopes, Abril de 1998